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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Anima lusa


 

Novo conto publicado no smashwords (https://www.smashwords.com/books/view/358756), com ilustração de Carlos Martins. Uma história que pode ser uma metáfora dos tempos que correm, ou não.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Elvas

Sempre que vou à terra onde cresci - e que deixei na ânsia de partir para outros lugares - sinto-me assim como o Scrooge, com o gorro de dormir enfiado na cabeça, esvoaçando numa espiral de memórias, guiado por anjos. Anjos que podem ser apenas pequenos recantos, que sempre estiveram lá, que se tinham tornado invisíveis para mim. Recantos naquele cenário de calquitos onde me decalco agora, com o esforço de voltar a esses tempos, de preencher os espaços vazios – desdentados - do puzzle, de ter sido mais presente, sem pressa de ser mais, ter sido mais constante, sem medo de ser menos. Simplesmente, de ter estado e de ter sido, e ter-me orgulhado - como me orgulho hoje - de ter vindo de onde vim.

domingo, 28 de julho de 2013

E só para quem não conhece, aqui estão as orelhas


Sou um ser superior


Quem quiser ver "O Inferno" de Hieronymus Bosch não precisa de se deslocar ao Museu do Prado, em Madrid, que nem é uma viagem assim tão longa, mas basta tão somente experimentar visitar o Fórum Montijo, num sábado, ou num domingo, à hora da refeição (almoço, para ser mais preciso).

O cenário é praticamente o mesmo, excepto aquelas duas famosas orelhas, que se assemelham a dois testículos, por entre as quais se destaca uma enorme e erecta lâmina de uma faca. Disso nunca lá vi, mas talvez por não estar muito atento. Atento estou às mesas de aspecto hediondo, que os gentis cidadãos (às vezes famílias inteiras) assim deixaram, atulhadas de tabuleiros com os escombros do que foi uma refeição alarve no McDonalds. Tabuleiros que ali ficaram por arrumar. Essa tarefa, invariavelmente, é-me delegada a mim, que acabo de chegar com o meu tabuleiro, sem encontrar um único espaço vazio para me sentar a almoçar. Mas antes de me debruçar sobre o item menos mau que selecionei como repasto, é-me proposto, pelo comportamento cívico dos outros, que perca um pouco mais de apetite a carregar os restos nojentos dos outros para os locais indicados. Muitas vezes com os próprios, que acabaram de abandonar a mesa, a “supervisionar” a atabalhuada execução da minha tarefa, pois ao mesmo tempo que envergo o meu tabuleiro, tenho ainda que vagar a mesa com os tabuleiros dos outros. Os outros, que me olham com um esgar jocoso quando reparam que a minha tarefa redunda na arrumação do meu próprio tabuleiro no final da refeição. 

Um esgar jocoso, um ar superior de quem pensa que estando pago o almoço, nada mais têm que fazer ou arrumar. Esquecem-se apenas que não estão num restaurante, mas num espaço comum e aberto, com mais gente a querer sentar-se para ter direito à refeição que se esfria nos braços, refeição que também pagou.
 
É claro que ninguém os obriga a levarem os tabuleiros, mas é uma questão de civismo, de fazer o que gostariam que também lhes fizessem, caso estivessem eles à espera. E não custa assim tanto, nem é assim tão desprestigiante. Quando termino a refeição e me dirijo à zona onde se arrumam os tabuleiros, não me sinto inferior, ou servil, ou qualquer que seja o rótulo ou classificação desdenhosa que perpassa subliminarmente no olhar sobranceiro de alguns transeuntes.

Bem pelo contrário. É nos escassos momentos em que executo um pequeno gesto que facilita a vida dos outros - estranhos, por sinal - à minha volta, que me sinto parte de uma qualquer elite deste país.