Claro que habitus do bicho nada nos diz acerca do peculiar conjunto de características morfológicas que colocam este colêmbolo como possível candidato a novidade faunística. Mas é um belo exemplar, para quem aprecia fauna de solo... e ficção científica.
terça-feira, 2 de abril de 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
"A preceito", uma crónica de Natal
Fizeram-me jurar que eu não exporia este episódio
- este triste episódio - ocorrido num destes dias de quadra natalícia, aquando
da arrumação e preparação da nossa casa, anfitriã do grande evento de 24 de
Dezembro. Tentaram, como disse, persuadir-me a não revelar este episódio, que
tanto envergonha e põe até em causa a minha máscula figura. Mas impelido por um
espírito natalício e um certo purismo até, a incarnar a pele daquele que - em
antes - por nós se deu ao sacrifício, aqui também eu me ofereço, empunhando a
verdade crua e dura das palavras nesta travessa, já em si repleta de sonhos,
filhoses e outros hidratos de carbono que me forçarão a deglutir com palavrinhas
ternas e mansas de senhoras antigas que gostam de apalpar tenras crianças pelos
dedos. Vou relatar assim esta história imbuído do espírito próprio desta época.
Época de ser grato e generoso, de dar aos outros - não necessariamente
presentes. Pode ser um gesto, uma agradável surpresa. E era o que eu ia fazer
acontecer, uma agradável surpresa, no dia em que fiquei em casa e não fui
trabalhar com a desculpa de adiantar a arrumação e organização da casa, mas na
minha mais secreta agenda o verdadeiro propósito era proporcionar uma surpresa à
minha cara-metade. E em que consistia a surpresa? Muito simples, ou pelo menos
assim pensava eu. Que era simples. Tinhamos já desde o Natal passado algumas
fotografias impressas, bem como molduras com passepartout de pendurar na parede,
que desde essa altura haviam ficado guardadas sem que ninguém lhes pegasse para
as montar e embelezar a parede do escritório com algumas das nossas aventuras
veraneantes.
Foi então isso que decidi fazer. Seria uma espécie
de presente de Natal antecipado. Uma bela surpresa quando ela chegasse a casa.
E foi assim que, ainda antes da hora do almoço, arregacei as mangas e pus mãos à
obra, sentado no chão do escritório com a parafernália de fotos e molduras na
frente. Pensava eu que à hora de almoço já estaria despachado e pronto para
outras tarefas. Mas aquilo era afinal mais complicado do que parecia e vi logo
que era empreendimento para demorar muito mais tempo. Isto porque as
fotografias e as molduras tinham obviamente medidas diferentes. As fotografias
eram bastante maiores em termos de comprimento e largura, ou seja, não seria
apenas abrir cada moldura, enfiar lá a fotografia e pronto. De modo que, após
me deter um pouco sobre o material debaixo dos meus olhos, lá me levantei na
direcção do caixa de ferramentas, de onde trouxe uma tesoura e uma fita métrica.
Se as fotografias eram maiores, resolvi então recortá-las, dois centímetros
aqui, meio centímetro ali, conforme as medições prévias, meticulosamente feitas
para que a melhor parte de cada fotografia ficasse no centro de cada moldura. E
assim foi, medi, medi, recortei, recortei. E, finalmente, abri os caixilhos das
molduras para lá colocar alguns dos nossos grandes momentos passados durante períodos
de férias, quer no ambiente urbano de cidades europeias, quer no exotismo e águas
azul-turquesa de paisagens tropicais.
Mas nada disto ela viu quando chegou a casa.
Apenas a desarrumação da sala e do escritório, pois eu mal tivera tempo de pôr
cobro ao primeiro objectivo pelo qual ficara em casa. Quanto aos assuntos
relativos à minha segunda agenda, nem um vestígio deles exposto na parede.
Porque nem me atrevi a mostrar o resultado final da minha obra. Isto porque,
após uma tarde de trabalho e uma dedicação hercúlea a recortar fotografias demasiado
grandes para as molduras, consegui uma magnífica proeza. As fotografias ficaram
significativamente mais curtas que o espaço que lhes estava reservado em cada
uma das molduras. Ao ponto de se ver, entre as margens das fotos e o passepartout,
um largo e feio sulco cor de cortiça, ou seja, via-se o fundo da moldura entre
as fotografias e o passepartout. Fotografias que, como referi, ERAM INICIALMENTE BEM MAIORES QUE AS DIMENSÕES DAS MOLDURAS!
É claro que ela se passou quando chegou a casa e fui compelido
a mostrar-lhe a minha obra. Em parte para provar o porquê de não ter cumprido as
tarefas caseiras que me tinham sido confiadas para esse dia. Aí estava o porquê.
A bricolage, a maldita bricolage. E esta minha paradoxal e bizarra maneira de
fazer as coisas a preceito.
Aqui está a razão pela qual não queriam que eu
contasse esta história. Porque contada assim, tão cruamente, vem riscar-me a
masculinidade tão naturalmente como nos apetece riscar a pintura dos automóveis
daqueles fulanos que o Larry David acutilantemente apelidou de “Pig Parkers”.
Não tanto porque não tenho jeito para recortar fotografias
e montar molduras na parede. Mas sobretudo porque mostrei aqui que sabia escrever
a palavra “passepartout”.
(É mentira - fui ver ao google. Não fazia ideia como se escrevia esta palavra. Mas é verdade que as fotografias pecaram por curtas)
Feliz Natal
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Bricolage
Vale sempre a pena revisitar este retrato da
sociedade, saído das mãos geniais de Quino, que adaptpu aqui uma frase célebre do
próprio Charlie Chaplin “A vida, quando vista de perto, é uma tragédia, mas
vista ao longe é uma comédia”. Este aspecto idiossincrático do humor, que
depende da escala espacio-temporal, estende-se também, neste cartoon de Quino, às
diferentes classes sociais. Enquanto uns (os ricos) se riem do Charlot a comer
o seu próprio sapato, outros (os pobres) choram ao ver a mesma cena no ecrã.
Ora, isto para dizer que hoje houve bricolage
cá em casa. Lembrei-me então de uma outra personagem de comédia, desta feita o
Mr.Bean. Eu cá não o vejo do meu balcão de 10.000 dólares. De facto, enquanto uns
se riem dele a bandeiras despregadas, quando o vêem a tentar montar um móvel ou
pregar um quadro na parede, aquilo a mim gera-me outro tipo de sentimentos.
Estacionamento
Os condutores de Smarts deviam pagar um imposto extra de circulação, só pelo transtorno que causam aos condutores incautos que, quando pensam que descobiram - finalmente - um lugar vazio, afinal está lá um Smart.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Manual de escatologia suburbana
Nada contra o conceito de
accionar um autoclismo com o pé. O Woody Allen dizia, pela boca do Larry David,
no filme “Whatever works”que um sinal claro de que a civilização está perdida é
que os autoclismos dos WC públicos já são feitos para se accionarem sozinhos,
após cada dejecção: é este o nível da descrença generalizada no ser humano. Um
homem já não é capaz de puxar a água do autoclismo quando vai à casa-de-banho. E
ainda querem que a gente recicle, ou que remova os tabuleiros da mesa onde
acabámos de nos lambuzar com um fastfood da zona de restauração do centro
comercial que, de resto, nos oferece sempre um cenário pós-apocalíptico à hora
de refeição. Mesas semeadas de tabuleiros, atulhados de plásticos e papéis, restos
de comida a verter-se nas cadeiras, chão coberto de óleos e molhos de batatas.
Os pés que ora escorregam, ora se pregam ao chão, é este o habitat suburbano que
um cidadão, como eu por exemplo, tem que suportar ao fim de semana.
Mas, como disse, nada contra os
autoclismos accionados com o pé. Isto, pelo menos, enquanto me conseguir
equilibrar numa só perna, fazendo, com a outra, pontaria e gincana na direcção
do pequeno botão pregado na parede, bem atrás da cabeça da retrete. Mas nada
contra, até porque, de qualquer modo, já evito tocar com as mãos nuas nas
superfícies dos WC’s públicos, principalmente nos manípulos das portas e das
torneiras. Lá está, porque a sociedade está, eu não direi perdida, mas pelo
menos tem ainda gente que após se demorar bastante nos cubículos das casas-de-banho,
vai directamente porta fora, sem um curto “pit stop” na zona dos lavatórios.
Zona essa que também tem que se lhe diga. Eu sei que devemos fazer por reduzir
a pegada ecológica, polegares para cima também quanto a estas medidas de poupar
água nos centros comerciais, nomeadamente por meio dos temporizadores nas
torneiras. Por um lado, resolve-me o problema de não ter que abrir a torneira
como o faço com os manípulos das portas, que é - e ofereço de barato a receita -
recorrendo à manga da camisola como quem usa um daqueles panos para tirar um
bolo do forno. Não dá tanto jeito com as torneiras, dá mais bandeira,
principalmente se alguém estiver ali ao lado, a olhar de esguelha, enquanto se
está a pentear ao espelho ou a escarrar na pia os restos do almoço agarrados aos
dentes. Com os temporizadores é mais fácil, basta dar uma marretada no topo da
torneira com as costas de uma mão. É mais fácil e mais discreto.
Mas há aqui outro problema, que tem a ver com a regulação do período de caudal na torneira, ou seja, quanto tempo nos dão para lavar as mãos após cada marretada. Ok, dirão alguns, se o tempo é pouco sempre podemos dar uma nova marretada e completar a higienização das mãos de forma adequada. A questão é que o tempo não é pouco, o tempo é, em muito boas casas-de-banho, nenhum. Ao ponto de termos que estar, literalmente, a pressionar de forma constante com uma das mãos no topo da torneira, enquanto lavamos a outra. Quando digo “lavamos a outra”, enfim, é fácil visualizar que ela tem é que se desenrascar sozinha. A expressão “uma mão lava a outra” não se aplica em WC’s dos centros comerciais. Deve ter sido assim, numa eventualidade como esta no passado, que desenvolvemos o nosso tão-famoso, e sobrevalorizado, polegar oponente. Acho mesmo que a selecção natural não vai ficar por aqui, a continuar assim vamos acabar por desenvolver (direi eu, recorrendo a alguma especulação) uma espécie de terceira mão. Ora para pressionar a torneira, ora para lavar a mão restante, debaixo do caudal. Essa terceira mão que escolha, é o mínimo que deve fazer, já que saltará com certeza outras tarefas, menos dignificantes para um ser humano.
Lá está, Deus não pensou muito
bem em algumas coisas. O homem foi uma espécie de doutoramento feito à pressa.
Eu até compreendo isso, há mais coisas para fazer na vida. Há vida para além do
doutoramento.
E bom, nem vou falar da outra maravilhosa invenção, que são os sensores postos nas torneiras, que servem para fazer accionar a escorrência de água apenas quando passamos as mãos por baixo de um sítio exacto. Um sítio tão exacto que se acumula gente nos lavatórios dos WC’s, uns a olhar de soslaio para os outros, a tentar perceber como raio é que o vizinho do lado conseguiu descobrir o ponto certo, o ponto G das torneiras. Não me alongarei mais sobre isso. Concluo apenas que, se já é difícil lavar as mãos, mais difícil ainda é a tarefa de as secar. E se já evito abrir portas com as mãos, com elas molhadas mais ainda. Pelo que aproveito sempre a nesga de espaço deixada em aberto pela pessoa que sai do WC imediatamente antes de mim. Isto leva-me a ter que medir muito bem os meus vizinhos debruçados nos lavatórios e a demorar-me a lavar as mãos o tempo necessário para poder cavalgar à boleia dos espaços que vão sendo deixados em aberto na direcção da porta da saída. Porta aberta por mãos que não se importam de a abrir sem pegas de cozinha. E assim espero e, discretamente, analiso as minhas vítimas, procuro o meu mais perfeito hospedeiro. “Será que este está quase?” pergunto-me, a ver um deles pelo espelho. “Será que é aquele que me vai abrir a porta?”. “O gajo nunca mais se despacha... bom, lá terei que usar a manga da camisa”.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Velocidade BUS
Sirene
irrompes pelo trânsito, sulcas a estrada
aproximas-te frenética
transbordas-te
no som mudo e trémulo que nos embala
feres-nos os tímpanos.
Doce agressão
foge desta noite, impaciente e molhada
foge, atrás da chuva
abandona estes corpos
flácidos, inertes
estes que dançam ao ritmo
da ondulação do motor.
Doce trepidação
faz-nos vibrar, dá-nos vida
vida
nestes rostos ausentes
nestes olhos vincados
olhos que não olham, deslizam apenas
num espaço infinito
num tempo estagnado à velocidade laranja.
Velocidade BUS
trazes-nos o dia a dia, cravado
na máscara disforme,
desfiguras-nos, cortas-nos
os pensamentos aos solavancos.
Mas para quê pensar
nas entrelinhas deste autocarro?
apenas envelhecemos e pronto.
Sem proveito?
sim, neste espaço de ninguém
sem proveito.
Porém levanto-me, porém comunico:
vai sair?
(uma imagem vale mil palavras. vi hoje uma
representação deste poema numa pintura em acrílico, com a assinatura CM. Uma obra
que, lá está, me deixou sem palavras. Magnífica)
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