a-chave-dicotómica

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Bricolage

Vale sempre a pena revisitar este retrato da sociedade, saído das mãos geniais de Quino, que adaptpu aqui uma frase célebre do próprio Charlie Chaplin “A vida, quando vista de perto, é uma tragédia, mas vista ao longe é uma comédia”. Este aspecto idiossincrático do humor, que depende da escala espacio-temporal, estende-se também, neste cartoon de Quino, às diferentes classes sociais. Enquanto uns (os ricos) se riem do Charlot a comer o seu próprio sapato, outros (os pobres) choram ao ver a mesma cena no ecrã.

Ora, isto para dizer que hoje houve bricolage cá em casa. Lembrei-me então de uma outra personagem de comédia, desta feita o Mr.Bean. Eu cá não o vejo do meu balcão de 10.000 dólares. De facto, enquanto uns se riem dele a bandeiras despregadas, quando o vêem a tentar montar um móvel ou pregar um quadro na parede, aquilo a mim gera-me outro tipo de sentimentos.

Estacionamento

Os condutores de Smarts deviam pagar um imposto extra de circulação, só pelo transtorno que causam aos condutores incautos que, quando pensam que descobiram - finalmente - um lugar vazio, afinal está lá um Smart.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Manual de escatologia suburbana

Nada contra o conceito de accionar um autoclismo com o pé. O Woody Allen dizia, pela boca do Larry David, no filme “Whatever works”que um sinal claro de que a civilização está perdida é que os autoclismos dos WC públicos já são feitos para se accionarem sozinhos, após cada dejecção: é este o nível da descrença generalizada no ser humano. Um homem já não é capaz de puxar a água do autoclismo quando vai à casa-de-banho. E ainda querem que a gente recicle, ou que remova os tabuleiros da mesa onde acabámos de nos lambuzar com um fastfood da zona de restauração do centro comercial que, de resto, nos oferece sempre um cenário pós-apocalíptico à hora de refeição. Mesas semeadas de tabuleiros, atulhados de plásticos e papéis, restos de comida a verter-se nas cadeiras, chão coberto de óleos e molhos de batatas. Os pés que ora escorregam, ora se pregam ao chão, é este o habitat suburbano que um cidadão, como eu por exemplo, tem que suportar ao fim de semana. 

Mas, como disse, nada contra os autoclismos accionados com o pé. Isto, pelo menos, enquanto me conseguir equilibrar numa só perna, fazendo, com a outra, pontaria e gincana na direcção do pequeno botão pregado na parede, bem atrás da cabeça da retrete. Mas nada contra, até porque, de qualquer modo, já evito tocar com as mãos nuas nas superfícies dos WC’s públicos, principalmente nos manípulos das portas e das torneiras. Lá está, porque a sociedade está, eu não direi perdida, mas pelo menos tem ainda gente que após se demorar bastante nos cubículos das casas-de-banho, vai directamente porta fora, sem um curto “pit stop” na zona dos lavatórios. Zona essa que também tem que se lhe diga. Eu sei que devemos fazer por reduzir a pegada ecológica, polegares para cima também quanto a estas medidas de poupar água nos centros comerciais, nomeadamente por meio dos temporizadores nas torneiras. Por um lado, resolve-me o problema de não ter que abrir a torneira como o faço com os manípulos das portas, que é - e ofereço de barato a receita - recorrendo à manga da camisola como quem usa um daqueles panos para tirar um bolo do forno. Não dá tanto jeito com as torneiras, dá mais bandeira, principalmente se alguém estiver ali ao lado, a olhar de esguelha, enquanto se está a pentear ao espelho ou a escarrar na pia os restos do almoço agarrados aos dentes. Com os temporizadores é mais fácil, basta dar uma marretada no topo da torneira com as costas de uma mão. É mais fácil e mais discreto.

Mas há aqui outro problema, que tem a ver com a regulação do período de caudal na torneira, ou seja, quanto tempo nos dão para lavar as mãos após cada marretada. Ok, dirão alguns, se o tempo é pouco sempre podemos dar uma nova marretada e completar a higienização das mãos de forma adequada. A questão é que o tempo não é pouco, o tempo é, em muito boas casas-de-banho, nenhum. Ao ponto de termos que estar, literalmente, a pressionar de forma constante com uma das mãos no topo da torneira, enquanto lavamos a outra. Quando digo “lavamos a outra”, enfim, é fácil visualizar que ela tem é que se desenrascar sozinha. A expressão “uma mão lava a outra” não se aplica em WC’s dos centros comerciais. Deve ter sido assim, numa eventualidade como esta no passado, que desenvolvemos o nosso tão-famoso, e sobrevalorizado, polegar oponente. Acho mesmo que a selecção natural não vai ficar por aqui, a continuar assim vamos acabar por desenvolver (direi eu, recorrendo a alguma especulação) uma espécie de terceira mão. Ora para pressionar a torneira, ora para lavar a mão restante, debaixo do caudal. Essa terceira mão que escolha, é o mínimo que deve fazer, já que saltará com certeza outras tarefas, menos dignificantes para um ser humano.

Lá está, Deus não pensou muito bem em algumas coisas. O homem foi uma espécie de doutoramento feito à pressa. Eu até compreendo isso, há mais coisas para fazer na vida. Há vida para além do doutoramento.

E bom, nem vou falar da outra maravilhosa invenção, que são os sensores postos nas torneiras, que servem para fazer accionar a escorrência de água apenas quando passamos as mãos por baixo de um sítio exacto. Um sítio tão exacto que se acumula gente nos lavatórios dos WC’s, uns a olhar de soslaio para os outros, a tentar perceber como raio é que o vizinho do lado conseguiu descobrir o ponto certo, o ponto G das torneiras. Não me alongarei mais sobre isso. Concluo apenas que, se já é difícil lavar as mãos, mais difícil ainda é a tarefa de as secar. E se já evito abrir portas com as mãos, com elas molhadas mais ainda. Pelo que aproveito sempre a nesga de espaço deixada em aberto pela pessoa que sai do WC imediatamente antes de mim. Isto leva-me a ter que medir muito bem os meus vizinhos debruçados nos lavatórios e a demorar-me a lavar as mãos o tempo necessário para poder cavalgar à boleia dos espaços que vão sendo deixados em aberto na direcção da porta da saída. Porta aberta por mãos que não se importam de a abrir sem pegas de cozinha. E assim espero e, discretamente, analiso as minhas vítimas, procuro o meu mais perfeito hospedeiro. “Será que este está quase?” pergunto-me, a ver um deles pelo espelho. “Será que é aquele que me vai abrir a porta?”. “O gajo nunca mais se despacha... bom, lá terei que usar a manga da camisa”.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Velocidade BUS


Sirene
irrompes pelo trânsito, sulcas a estrada
aproximas-te frenética
transbordas-te
no som mudo e trémulo que nos embala
feres-nos os tímpanos.

Doce agressão
foge desta noite, impaciente e molhada
foge, atrás da chuva
abandona estes corpos
flácidos, inertes
estes que dançam ao ritmo
da ondulação do motor.

Doce trepidação
faz-nos vibrar, dá-nos vida
vida
nestes rostos ausentes
nestes olhos vincados
olhos que não olham, deslizam apenas
num espaço infinito
num tempo estagnado à velocidade laranja.

Velocidade BUS

trazes-nos o dia a dia, cravado
na máscara disforme,
desfiguras-nos, cortas-nos
os pensamentos aos solavancos.
Mas para quê pensar
nas entrelinhas deste autocarro?
apenas envelhecemos e pronto.
Sem proveito?
sim, neste espaço de ninguém
sem proveito.
Porém levanto-me, porém comunico:
vai sair?

(uma imagem vale mil palavras. vi hoje uma representação deste poema numa pintura em acrílico, com a assinatura CM. Uma obra que, lá está, me deixou sem palavras. Magnífica)

Collembola


É esta a ordem de sacaninhas que teima em dificultar-me a vida, na arena do campo focal, do outro lado da ocular do microscópio.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Crónica das pessoas que se desviam, quando em rota de colisão com as outras

Eu confesso, já fui uma dessas pessoas. E não conseguia mesmo compreender como raça poderiam existir das outras. Daquelas que só olham em frente, que descuram o ambiente em volta, como se mais ninguém existisse em seu redor. Egos como balões que enchem, enchem, enchem até as paredes de borracha preencherem nos corredores dos centros comerciais todos os espaços possíveis. Pessoas que param no centro das escadas rolantes, não cuidando de deixar vago algum espaço para que os outros possam seguir o seu caminho. Palavra que eu não entendia isto de haver gente que não se desviava um milímetro do seu percurso nos passeios de fim-de-semana. Os outros, se quiserem, que se desviem. Os outros que os contornem, nem que para isso tenham que empreender uma complexa movimentação de parábolas e contraparábolas, ou colar-se às paredes dos corredores. 

Compreendo que haja uns quantos indivíduos que encontrem nestes pequenos momentos uma oportunidade para medir forças, sobretudo quem está sequioso de um ajuste de contas com as injustiças da vida. Mas então porque é que eu dava sempre comigo a ser o tal, o que se desviava do caminho dos outros? Que caramba, quando vejo um vulto a surgir ao fundo do corredor, parto do princípio que aquele vulto também me vê a mim e, tal como eu, tem muito tempo para corrigir a trajectória da sua passada de uma forma suave, não demasiado submissa, é certo, a ceder-me todo o espaço para eu passar, mas também não tão sobranceira e insolente que me imponha a mim o ônus de ceder o espaço todo a suas altezas. Ceder a sua quota parte, era apenas o que eu pedia, seria esse o lema e não mais do que isso. Ir pela direita, dar a esquerda como nas rotundas, seria quanto a mim uma regra básica de conduta dentro de um centro comercial, tal como, de resto, em qualquer outro lado ou parte do mundo. Mas as pessoas que circulam nos centros comerciais parece que por vezes não são pessoas com obrigações cívicas. Ou assim pensava eu.

Hoje, admito, pessoas destas são pessoas normais. O problema era meu. Eu que sou do material de que são feitos os psicopatas e tenho esta propriedade de ser transparente, invisível para a maior parte das pessoas. É por isso que, também por fora dos centros comerciais, os carros dos outros já não param nas rotundas, cedendo-me a prioridade quando me é devida. A minha transparência propaga-se pelo volante e adere ao carro que conduzo, também ele aparentemente invisível aos olhos dos outros condutores. Será também essa a razão que explica este fenómeno de haver peões, sejam eles jovens, idosos ou pais com crianças pequenas, que cada vez mais vezes se lançam para o meio da estrada e a atravessam, fora das passadeiras, sem repararem que o meu carro se aproxima. O meu carro, que absorve as minhas propriedades. O meu volante, trémulo e agonizante, nas mãos de um homem que, como disse, é feito do material de que são feitos os psicopatas. Um homem que era alguém que insistia em respeitar o espaço dos outros, a respeitar as distâncias de segurança. 

Mas também eu não estou imune a absorver as propriedades dos outros. Não é que não continue a ser invisível, mas hoje empreendo um esforço maior no sentido de não ceder tanto o meu espaço, ou seja, faço por ser menos translúcido. E para tal decidi recorrer a medidas drásticas. Ou seja, quando um vulto se aproxima, faço as contas e desvio-me o que acho ser a quota parte do meu lado, a minha “fair share”. E o outro depois, que se aguente à bronca. Terá duas opções, ou ceder também a sua quota parte de espaço, corrigindo a trajectória do percurso nessa devida proporção, ou então que assuma as consequências (leia-se, de levar comigo em cima) pois mais não farei do que a minha obrigação. Na verdade, esta minha nova regra de circulação pelos centros comerciais tem resultado numa experiência sociológica e pessoal interessante. Nunca na minha vida tinha dado tantos encontrões e “ombradas” a cidadãos anónimos. “Ai não me vêem? Ai não se desviam desta óbvia rota de colisão? Ora tomem lá” e lá vai mais um embate  de ombro contra ombro. Confesso que começo até a retirar algum prazer nestes duelos. Começo até, diga-se em nome de toda a clareza, a ceder cada vez menos da minha própria parte aos outros transeuntes. E dou comigo, por vezes, a fazer até pontaria. Enfim, tudo por uma sociedade mais correcta e em nome do comportamento cívico dos cidadãos que andam aí pelos centros. 

E nesta minha missão não dou folga a nenhum tipo de personalidade, todas estão debaixo da mira do meu ombro justiceiro. Excepção feita, claro, às que considero mais vulneráveis, das quais me compadeço porque estão de mal com a vida, com má cara mas com tal fragilidade no olhar que nem insisto em lhes apertar o cerco. É o caso, por exemplo, daquelas velhotas recurvadas com mais de oitenta anos. E também o daqueles pobres diabos, rapazolas de aspecto troglodita e biceps disformes, tipicamente de quem passa noite e dia a malhar no ginásio.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fim de semana louco

Começou sexta-feira, dia 23, com a defesa da tese que resultou dos últimos quatro anos e meio de trabalho, na sumptuosa Sala dos Capelos em Coimbra.


Depois, como se não bastasse, dia 24 foi a apresentação do livro "Lisboa no ano 2000" com sessão de autógrafos, em Lisboa. Caído lá de pára-quedas, com a cabeça ainda em água e uma fila considerável de pessoas a entregar livros para assinar, quem é que diz que me ocorria algo interessante para dizer em cada uma das dedicatórias.


Isto de se (querer) ter duas vidas tem os seus custos, nomeadamente não podermos fazer tão bem como queriamos cada uma delas. Sendo que há uma das vidas (a ciência) que é prioritária, a ficção insiste em querer irromper, como uma larva de mosquito em ebulição, na loucura da ecdisis, por entre a espessura da linha que separa os fundos sombrios da tona da água.