a-chave-dicotómica

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sábado, 8 de dezembro de 2012

Crónica das pessoas que se desviam, quando em rota de colisão com as outras

Eu confesso, já fui uma dessas pessoas. E não conseguia mesmo compreender como raça poderiam existir das outras. Daquelas que só olham em frente, que descuram o ambiente em volta, como se mais ninguém existisse em seu redor. Egos como balões que enchem, enchem, enchem até as paredes de borracha preencherem nos corredores dos centros comerciais todos os espaços possíveis. Pessoas que param no centro das escadas rolantes, não cuidando de deixar vago algum espaço para que os outros possam seguir o seu caminho. Palavra que eu não entendia isto de haver gente que não se desviava um milímetro do seu percurso nos passeios de fim-de-semana. Os outros, se quiserem, que se desviem. Os outros que os contornem, nem que para isso tenham que empreender uma complexa movimentação de parábolas e contraparábolas, ou colar-se às paredes dos corredores. 

Compreendo que haja uns quantos indivíduos que encontrem nestes pequenos momentos uma oportunidade para medir forças, sobretudo quem está sequioso de um ajuste de contas com as injustiças da vida. Mas então porque é que eu dava sempre comigo a ser o tal, o que se desviava do caminho dos outros? Que caramba, quando vejo um vulto a surgir ao fundo do corredor, parto do princípio que aquele vulto também me vê a mim e, tal como eu, tem muito tempo para corrigir a trajectória da sua passada de uma forma suave, não demasiado submissa, é certo, a ceder-me todo o espaço para eu passar, mas também não tão sobranceira e insolente que me imponha a mim o ônus de ceder o espaço todo a suas altezas. Ceder a sua quota parte, era apenas o que eu pedia, seria esse o lema e não mais do que isso. Ir pela direita, dar a esquerda como nas rotundas, seria quanto a mim uma regra básica de conduta dentro de um centro comercial, tal como, de resto, em qualquer outro lado ou parte do mundo. Mas as pessoas que circulam nos centros comerciais parece que por vezes não são pessoas com obrigações cívicas. Ou assim pensava eu.

Hoje, admito, pessoas destas são pessoas normais. O problema era meu. Eu que sou do material de que são feitos os psicopatas e tenho esta propriedade de ser transparente, invisível para a maior parte das pessoas. É por isso que, também por fora dos centros comerciais, os carros dos outros já não param nas rotundas, cedendo-me a prioridade quando me é devida. A minha transparência propaga-se pelo volante e adere ao carro que conduzo, também ele aparentemente invisível aos olhos dos outros condutores. Será também essa a razão que explica este fenómeno de haver peões, sejam eles jovens, idosos ou pais com crianças pequenas, que cada vez mais vezes se lançam para o meio da estrada e a atravessam, fora das passadeiras, sem repararem que o meu carro se aproxima. O meu carro, que absorve as minhas propriedades. O meu volante, trémulo e agonizante, nas mãos de um homem que, como disse, é feito do material de que são feitos os psicopatas. Um homem que era alguém que insistia em respeitar o espaço dos outros, a respeitar as distâncias de segurança. 

Mas também eu não estou imune a absorver as propriedades dos outros. Não é que não continue a ser invisível, mas hoje empreendo um esforço maior no sentido de não ceder tanto o meu espaço, ou seja, faço por ser menos translúcido. E para tal decidi recorrer a medidas drásticas. Ou seja, quando um vulto se aproxima, faço as contas e desvio-me o que acho ser a quota parte do meu lado, a minha “fair share”. E o outro depois, que se aguente à bronca. Terá duas opções, ou ceder também a sua quota parte de espaço, corrigindo a trajectória do percurso nessa devida proporção, ou então que assuma as consequências (leia-se, de levar comigo em cima) pois mais não farei do que a minha obrigação. Na verdade, esta minha nova regra de circulação pelos centros comerciais tem resultado numa experiência sociológica e pessoal interessante. Nunca na minha vida tinha dado tantos encontrões e “ombradas” a cidadãos anónimos. “Ai não me vêem? Ai não se desviam desta óbvia rota de colisão? Ora tomem lá” e lá vai mais um embate  de ombro contra ombro. Confesso que começo até a retirar algum prazer nestes duelos. Começo até, diga-se em nome de toda a clareza, a ceder cada vez menos da minha própria parte aos outros transeuntes. E dou comigo, por vezes, a fazer até pontaria. Enfim, tudo por uma sociedade mais correcta e em nome do comportamento cívico dos cidadãos que andam aí pelos centros. 

E nesta minha missão não dou folga a nenhum tipo de personalidade, todas estão debaixo da mira do meu ombro justiceiro. Excepção feita, claro, às que considero mais vulneráveis, das quais me compadeço porque estão de mal com a vida, com má cara mas com tal fragilidade no olhar que nem insisto em lhes apertar o cerco. É o caso, por exemplo, daquelas velhotas recurvadas com mais de oitenta anos. E também o daqueles pobres diabos, rapazolas de aspecto troglodita e biceps disformes, tipicamente de quem passa noite e dia a malhar no ginásio.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fim de semana louco

Começou sexta-feira, dia 23, com a defesa da tese que resultou dos últimos quatro anos e meio de trabalho, na sumptuosa Sala dos Capelos em Coimbra.


Depois, como se não bastasse, dia 24 foi a apresentação do livro "Lisboa no ano 2000" com sessão de autógrafos, em Lisboa. Caído lá de pára-quedas, com a cabeça ainda em água e uma fila considerável de pessoas a entregar livros para assinar, quem é que diz que me ocorria algo interessante para dizer em cada uma das dedicatórias.


Isto de se (querer) ter duas vidas tem os seus custos, nomeadamente não podermos fazer tão bem como queriamos cada uma delas. Sendo que há uma das vidas (a ciência) que é prioritária, a ficção insiste em querer irromper, como uma larva de mosquito em ebulição, na loucura da ecdisis, por entre a espessura da linha que separa os fundos sombrios da tona da água.

sábado, 24 de novembro de 2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Programação do Forum Fantástico (sujeito a correcções)

Fórum Fantástico 2012 (7ª Edição)
De 23 a 25 de Novembro
Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro
Lisboa
*
Sexta, 23 de Novembro
15:00 – Abertura do FF2012.
15:30 – WorldCon 2014, Londres
Antevisão e projectos, apresentado por Rogério Ribeiro.
16:00 – Workshop de Escrita Criativa Fantástica Trëma (I)
Lançamento da iniciativa por Luís Filipe Silva e Rogério Ribeiro (coordenadores).
17:00 – Intervalo.
17:30 – Ilustração Fantástica
Painel e apresentações com Ana Gomes e Luís Melo.
18:00 – Criar SciFi
Painel e apresentações com António de Macedo, João Leitão, Filipe Homem Fonseca e João Alves.
*
Sábado, 24 de Novembro
11:00 – Workshop de Escrita Criativa Fantástica Trëma (II)
Com João Barreiros, Madalena Santos e Bruno Martins Soares.
12:30 – Intervalo.
14:20 – Lançamento Trëma
Estreia exclusiva da nova publicação Trëma (org. Rogério Ribeiro).
14:40 – Lançamento Lusitânia
Estreia exclusiva da nova publicação Lusitânia (org. Carlos Silva).
15:00 – Movimento Vaporpunk
Visão da primeira EuroSteamCon Porto (Set. 2012), e apresentação do Almanaque Steampunk, com Joana Lima, Sofia Romualdo, Rogério Ribeiro, Joana Maltez e André Nóbrega.
15:30 – Mitos e Fantasmas na ficção nacional
Painel com David Rebordão, Cláudio Jordão, Nélson Martins e Vanessa Fidalgo.
16:15 – O Conto do Vento
Exibição da curta-metragem premiada, de Cláudio Jordão e Nélson Martins.
16:30 – Intervalo
Com sessão de autógrafos.
17:00 – Sugestões de Livros e Jogos
Apresentação com João Barreiros, Artur Coelho e João Campos.
17:30 – À conversa com o Sr. Monstro
Lançamento exclusivo de “Sr. Monstro” (Ed. Contraponto), de Dan Wells, com a presença do autor.
18:00 – Lisboa no ano 2000, o retrofuturo electropunk
Lançamento exclusivo da antologia “Lisboa no ano 2000” (Ed. Saída de Emergência), organização de João Barreiros.
18:30 – Sessão de autógrafos.
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Domingo, 25 de Novembro
11:00 – Workshop de Escrita Criativa Fantástica Trëma (III)
Com Dan Wells, Mário de Freitas e Luís Filipe Silva.
12:30 – Intervalo.
14:30 – Futuros Imperfeitos – Obras esquecidas da Ficção Científica Portuguesa do Séc. XX
Apresentação por Luís Filipe Silva.
15:00 – Cibercultura e Ficção.
Lançamento exclusivo da antologia de textos “Cibercultura e Ficção” (Ed. Documenta), organizada por Jorge Martins Rosa no âmbito do projecto “A Ficção e as Raízes da Cibercultura”.
15:30 – Ficções além-género
Painel com Afonso Cruz, Pedro Guilherme Moreira e João Morales (moderador).
16:30 – Intervalo
Com sessão de autógrafos.
17:00 – Banda-desenhada
Painel com Nuno Duarte, Joana Afonso, Jorge Oliveira e João Lameiras (moderador).
17:45 – Super-Heróis à Portuguesa
Painel com José de Matos-Cruz, Daniel Maia, João Leitão, Nuno Amado e Luís Filipe Silva.
18:30 – Capitão Falcão
A encerrar o FF2012, exibição do episódio-piloto de “Capitão Falcão”, de João Leitão.
*

Para consultar as actualizações/correcções do programa, bem como outras informações, ver em: http://forumfantastico.wordpress.com/



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Capa da antologia


http://forumfantastico.wordpress.com/2012/11/06/lancamento-antologia-lisboa-no-ano-2000/#comments

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

santas rotundas

Já fiz a estrada duas mil vezes e nunca a fiz duas vezes igual. 

Não porque me agrade a aventura de experimentar caminhos novos, mas porque me perco sempre.

Simplesmente não a consigo fazer igual.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Vertigo

Estive a rever este clássico do mestre Alfred Hitchcock. 

Li acerca deste filme, se não me engano na revista Empire, que é "uma história de fantasmas sem fantasmas". E é isso mesmo. Só o génio de Hitchcock para conceber um thriller assim tão subtil, tão elegante.

Estou dividido entre Vertigo e Rebecca como os melhores filmes de Hitchcock, mas não tenho dúvidas que quando mergulhamos na simbologia e genética do cinema, Hitchcock está lá nas profundidades, ancestral comum de vários géneros da 7ª arte que foram ramificando em tudo o que existe hoje à superfície. 

Rever Hitchcock é como que uma viagem às origens, mas não é só isso. Se se diz que há cinema antes e depois de Psycho, também é verdade que não são muitos os filmes de suspense que hoje em dia o suplantam.