Já quase me tinha esquecido deste grande amor por rove beetles (Staphylinidae), até ter surgido esta nova jornada de identificação intensiva de espécies de estafilinídeos no período pós tese.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
Por falar em acabar o mundo
Outro grande filme de Lars von Trier. Pelo menos para mim, fã confesso deste que é um dos grandes autores do nosso tempo. Pelo menos um autor incontornável, face aos afiados e desconfortáveis pontos de vista que ele tão bem exprime com a sua câmara, duma forma tão densa e íntima que traz ao de cima reminiscências de Bergman. É um estilo nórdico, de que tanto gosto. E por mais que se critique, Lars é cinema.
Este fala exactamente do fim do mundo, mas numa perspectiva bem diferente do que são normalmente filmes sobre o apocalipse. Este é um filme de personagens, um filme sobre a depressão e a relação de uma pessoa, que se sente tão afastada do mundo, exactamente com o fim desse mesmo mundo. E à volta dela outras personagens, que tanto se esforçam para que ela se insira neste mundo, como reagirão essas pessoas perante o apocalipse. Tem esta obra o (feliz) título de Melancholia. E talvez estivesse no meu subconsciente quando escrevi aqui o post "A dívida". Porque há muito deste filme nesse meu post. Aí está porque gosto do Lars. É isso o que é para mim um cineasta, é alguém com a capacidade de se incrustar no subconsciente das pessoas, alguém que não tem que fazer filmes fáceis de ver, e fáceis de esquecer.
Pelo contrário. Um cineasta deve fazer filmes que não sejam assim tão fáceis de ver e, sobretudo, que não sejam assim tão fáceis de esquecer.
terça-feira, 8 de maio de 2012
som do frigorífico
E por falar em poesia (do Sam Mendes), vou revisitar a fruta do meu quintal, fruta já antiga e, portanto, com laivos de adolescência:
Lúcido
Sempre lúcido
Estupidamente lúcido.
E no entanto só vejo o que os olhos magicam
Transformam e reinventam
Os argumentos visuais
Sobre os quais
Permaneço
Obsessivamente lúcido.
Tento embriagar-me, mas não consigo
Tento refugiar-me
Longe dos pensamentos mas
É uma perda de tempo, continuo lúcido
Odiosamente.
Em último recurso
Absorvido num ócio flácido e demente
Sorvo toda a turbulência do ruído
Até restar
A mudez picante do silêncio
E o coração regula-se
Com o ritmo
Do pêndulo do relógio, mas não o oiço
E abstraio todo o som, ficando aquele
Que vivo com, e nunca reparo
O som da pele
O som do frigorífico.
Os olhos não vêem, os ouvidos não ouvem
A mão direita sente no abstracto
O rijo tacto da maçã,
A bexiga assola o cérebro
Intoxicada, mas não ligo
Desobedeço
E regozijo de uma dentada na maçã
Sentindo os ácidos porosos
Ruidosamente na boca
Tenho agora na mão direita
Uma dentada na maçã, a Eva na minha mão.
O Adão? Não
Não quero esse cabrão
Quero a serpente
Não tenho medo do engano, só dos que vivem do engano
O diabo enganei-o eu
E rói-se de inveja de mim.
Tenho uma serpente no quintal
É essa criatura a maldição
Ou as dores de parto que o são?
Que espera alguém de quem vem
do ventre senão de um estranho?
É isso,
Sou um estanho
Sou o mal
Sou traição.
Sou serpente entre tantas outras
Brotei de um ventre igual a tantos outros
Sou ninguém como todos os que me rodeiam
Sou demente,
Um canal
Onde tudo vem, tudo vai, e nada passa
Aliás
Como tantos outros.
Sou o mal genuíno porque
Não me enquadro em nada do que vejo e do que faço
E que todos fazem
Sou ódio, mas não odeio
Não me revejo em nada, a tudo estou alheio,
Sou maldição
Sou animal
Sou inveja,
Espero portanto
Por uma explicação, ou um sinal que seja
Uma mão
Um papão
Algo que se veja
Ou
Trincarei a maçã até ao caroço
E os restos, no frigorífico
Apodrecerão.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
A dívida
Há pessoas a quem não agradecemos devidamente.
Mas como é que se retribui, com palavras ou gestos, a alguém que em determinada
altura foi o rochedo ao qual nos agarrámos quando o chão parecia fugir-nos por
debaixo dos pés?
Não surgem na vida muitas pessoas assim, com
aquele carácter sólido e o tom certo, assertivo, que nos ajuda a trazer para
cima ou, simplesmente, que não nos deixa afundar no pântano. É preciso ter
sorte para, na circunstância certa da vida, essa pessoa estar ao nosso alcance.
Mais sorte ainda é necessária para que essa pessoa sequer exista. Nem toda a
gente tem ou teve uma pessoa assim. Uma pessoa que pode ser um familiar, ou um
amigo.
A mim aconteceu-me uma pessoa assim,
com quem me sinto eternamente em dívida. Sei que não faz parte do perfil de alguém
como a pessoa que aqui descrevo nos pedir um dia algo em troca.
E é isso que também nos faz sentir ainda mais em
dívida.
Talvez a melhor forma de pagar a dívida seja aprendermos a ser melhores
pessoas. Saber colocar os pés mais firmemente no chão e termos mais coragem a trilhar
o nosso próprio caminho, sentindo que estamos entregues ao mundo, disponíveis
para o mundo e menos centrados em nós próprios. Empreender, talvez, um “paid it
forward” mesmo quando não nos sentimos preparados para isso. E por preparados refiro-me
a realizados com os nossos próprios projectos. Eternos, inalcançáveis projectos.
Deixá-los de lado, em “stand-by”, eis como pagar a dívida. Ou talvez
emprestá-los aos outros, por um tempo indeterminado, talvez para sempre. Eis
como pagar a dívida.
E sermos felizes assim. Felizes com
as pequenas coisas, talvez sejam essas as grandes coisas. As coisas que
interessam ao prepararmo-nos para a morte. Tudo depende, sempre, da perspectiva.
Não há mal nenhum em prepararmo-nos para a morte na etapa os trintas. Não é
sequer prematuro, é realista. Quanto mais cedo nos preparamos para a morte mais
tempo de vida ganhamos, em todo o intervalo que perfaz o momento em que nos sentimos
prontos para a morte e o momento em que ela se materializa.
E prepararmo-nos para a morte é não mais do que fazer as pazes com os
outros, e ir ainda mais além e fazermos as pazes connosco. É visitar o quarto da nossa infância como
quem chega ao fim da viagem. Como diria T.S. Elliot, “voltar ao ponto de
partida e, pela primeira vez, conhecer esse lugar”. É revisitar os nossos
amigos de infância, aprender que foi com eles que nós estivemos mais perto do
eu mais verdadeiro. O eu que evitámos tantas vezes olhar de frente sempre
que nos olhávamos ao espelho.
Revisitar os amigos de infância, trilhando o feno em câmara lenta.
Revisitar os amigos de infância, como Ulisses a tornar a Ítaca.
É isso em que se traduz encarar a
morte, sentir qual o nosso lugar, é por fim ouvir mais do que falar, é por fim voltar
a encarar o espelho. É encontrarmos no abraço daquele amigo o nosso lugar.
Sentir que o mundo pode acabar. Que não é preciso mais nada dizer, mais nada
fazer. Que estamos bem. É isso o preparar para a morte. É o extenso caminho
derivar para a casa velha, voltar a pisar o caminho invadido de heras, em
direcção ao nosso pai, à nossa mãe.
É isso o preparar para a morte, tirar dos ombros o peso dos anos que
tentámos ir mais além. Viver neste tempo que dista o dia em aceitámos o pacto
de que somos finitos, até à consumação desse pacto, sem que nada o tempo nos
leve que não aquilo de que já não precisamos. Vivermos para as pequenas coisas,
e aceitarmos que vivemos para as pequenas coisas, e assim fazermo-nos ao caminho das
pequenas coisas, trazendo todo o percurso de uma vida na palma de uma mão.
Eis como pagar a dívida. Obrigado João.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Memórias de infância
Nem só de Lucky Lukes e Marsupilamis vivia a imaginação jovem e imberbe deste vosso modesto servidor de posts nos anos 80-90. Este servidor de vasta panóplia de parafilias, acrescentaria eu, a maior parte das quais beberam da fonte inesgotável desta personagem singela, chamada Druuna. Que é uma personagem que em muito se assemelha a outras personagens da nossa infância, como a Branca de Neve, ou a Cinderela, ou a Chicholina. A verdade é que, conteúdo erótico à parte, esta é uma fabulosa obra de ficção científica com aquela ambiência futurista deteriorada, decadente, contaminada, corrompida e mutante, com traços estéticos que inspiram qualquer filme zombie. Uma preciosidade.
sábado, 28 de abril de 2012
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