a-chave-dicotómica

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sábado, 6 de novembro de 2010

"Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa"

Quando leio Álvaro de Campos, sou engolido por ele. Tudo o que em mim fervilha em preso reboliço, excreta-se nele.

Tudo o que em mim consiste, tudo o que em mim desconfio que existe, materializa-se nele.

Quando Leio Álvaro de Campos, algo em mim se transfigura.

Eu torno-me Álvaro de Campos. Fundo-me nele.

Ele que se dizia “vadio”, “isolado na alma”, tem esta que lhe pertence.

Tudo o resto, é social.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"No... because I'm not that guy...

... and we are not that couple."
(Jim in The Office)

O caso arquivado "4 x 4"

Um dia o Prof. Duarte mandou-nos fazer uma composição acerca de um dos nossos colegas da turma. E é com muita pena que não me lembro sobre qual personalidade versou o meu texto, mas acredito que tenha sido um longo e pormenorizado ensaio que, estivesse ele vivo, anexa-lo-ia garantidamente aqui nas minhas crónicas. Acredito porém que me tenha escudado, quer por preguiça quer por cobardia, num colega cuja personalidade fosse bastante conspícua e vincada, tornando-me a tarefa mais fácil. Digamos o Nuno Vivas, por hipótese. É por isso que, se de mais nada me lembro acerca desse dia, lembro-me que admirei, quase com veneração, a coragem do Gustavo ao fazer a sua escolha.

O Gustavo escolheu o João Luís. Mais correctamente, João Luís Assude. E se do meu texto não me lembro, o do Gustavo continua fresco na minha memória:

«O João Luís é atinadinho/

tem uma grande cabeça de jipe/

e é bom rapaz».

Foi um texto sucinto, a isso tem que se fazer justiça, mas não deixou mesmo assim de levantar o véu de uma pequena dúvida. O que é uma cabeça de jipe?

Não me lembro se o Prof. Duarte nessa altura teve a coragem política de colocar a questão em cima da mesa, mas devia. A verdade é que eu andei estes anos todos sem saber o que era uma “cabeça de jipe” e por que tinha João Luís essa alcunha.

Por que é que Deus, quando alinhou todas as criaturas para lhes dar cognomes, concluiu «…e tu, meu caro João Luís, vais ser o ‘Cabeça de Jipe’».

Que o D. Dinis era o Lavrador a gente percebe, mas não se entende o porquê da origem desse cognome que etiquetou o nosso amigo. Não se entende, ou não entendi eu, durante muitos anos. Mas, ou não fosse este vosso escrevente um excelso cientista, fui finalmente investigar.

Como em qualquer outra matéria científica, fui olhar retrospectivamente para factos objectivos. O que é que o João Luís, para além de ser de facto bom rapaz, de agradável trato e estilo recatado… o que é que ele tinha? Tal como eu, João Luís tinha, e ainda terá se bem que mais disfarçada, uma cicatriz no centro testa. Fui olhar-me ao espelho. A minha cicatriz com dois pontos, que apesar de ténues estão ainda marcados, é uma cicatriza horizontal, estilo Frank N’ Stein mas em ponto pequeno. Porque o tamanho do cérebro que importaram para a minha cachola não justificava uma cicatriz maior.

Já a cicatriz do João Luís era uma cicatriz vertical, talvez com 3 ou 4 pontos. O que me leva a perguntar «como raio é que isso se assemelha a um jipe?». E por que é que não era, também eu, um jipe? Não direi um daqueles grandes, tipo Land Rover, mas pelo menos um Mitsubishi Samurai. Porque não?

E EURECA, descobri. Porque não tinha nada a ver com jipes. O incompetente que baptizou o nosso amigo João Luís não se referia a nada da indústria automóvel. Referia-se à indústria da moda. De facto a cicatriz não se assemelha a um JIPE.

Assemelha-se, isso sim, a um ZIP!

Ou, como mais comummente se designa, um fecho eclair. É por isso que valem a pena estas análises a posteriori, qual série “Casos arquivados” que tanto passa na televisão. Aposto que em todos estes anos andou tanta gente enganada. Não era Jipe, ó analfabeto-que-baptizou-o-João-Luís, era Cabeça-de-Zip que querias dizer.

Agora sim, faz todo sentido. E até estou a ver a cena. Se eu e o João Luís fossemos um fato, ele seria o fecho central do casaco, enquanto eu seria uma das bolsinhas laterais. Para pôr o telemóvel, por exemplo. Ou, caso fosse um fato de escuteiro “coronel tapioca”, eu poderia ser ainda aquele fecho zip que destaca as pernas das calças tornando-as calções. Inúmeras utilizações teríamos, eu e o João Luís, no mundo da moda.

Mas voltando à escola, agora com a cabeça mais desanuviada, o João Luís era de facto - e mais uma vez repito, plagiando o Gustavo – um bom rapaz. Atinado e discreto. O problema é que ele era talvez demasiado discreto, porque tenho dificuldade em recordá-lo nos cenários onde os nossos jogos de recreio se espraiavam.

Por exemplo, no campo de futebol, vejo claramente o João Carlos à baliza, o Gustavo à defesa, o Zé Manel no meio campo, o Pedro Inocêncio no ataque, e até vejo, lá ao fundo, o Fernando sempre à mama. Mas não me lembro de ver lá o João Luís.

E se a verdade é que o desporto não era uma das suas especialidades, também não me recordo muito dele noutros nobres jogos e saudáveis brincadeiras, como o “cú à parede” ou o “mata coelhos”, ou mesmo as clássicas brincadeiras com os vintage StarWars ou os Masters do Universo que se faziam em alguns aniversários, quando lá calhava.

Lembro-me que cada um de nós tinha um estilo diferente a brincar com os bonecos. Eu tentava criar longas histórias de aventura, com emoção e romance. Já o Luís Laranjeira, num dos meus aniversários, dominou toda a brincadeira pegando nos bonecos e lançando-os uns contra os outros, como se de pinos de bowling se tratassem. “E lá vai o Han Solo: “Pumba! Todos mortos!”.

Não Luís, não é assim. Não estão todos mortos.

E não estão mortos porque os bonecos não são todos a mesma coisa, eles têm a sua individualidade. Por exemplo, o Admiral Acbar nem sequer estaria no campo de batalha. Ele não é um guerreiro, é um intelectual! O que aliás se vê logo, a avaliar pelo ar papudo.

É engraçado como os nossos bonecos de infância são dos objectos mais íntimos que tivemos. Mais do que se pensa. Eu, por exemplo, baptizava-os com nomes que ocorriam na minha mente super-criativa. Nomes como “Onun Anomrac”, “Ordep Ariejnaral”, “Iur Ednas” ou “Suil Snitram”.

Vês Luís, aquele boneco que arremessaste tem o teu nome: Suil. Luís ao contrário.

Mas isto para voltar a outro Luís, o João, e à sua ausência aquando das nossas brincadeiras. Afinal, onde é que andava o João Luís?

Oh, mas que cabeça de jipe, a minha. É óbvio. Estava, também, a jogar StarWars. Mas no ZX Spectrum. No mítico Zx Spectrum.

Lá, pelo menos, no seu recato, os personagens não eram lançados uns contra os outros como pinos de bowling. E no Match day todos se esforçavam. Não havia lá daqueles que estão sempre à mama.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Super Ray é apenas o alter-ego de uma das personagens de uma série imperdível

E esta série chama-se "Bored to death".
Em tempos de consumo rápido e descartável em termos de produtos de ficção para a TV, aqui está um Delta Diamante de escrita criativa. Ou isso ou já sofro de expresso-sickness...

Depois do Homem-Aranha, Hulk, Asterix e Lucky Luke, eis que chegou o...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Haverá canção mais perfeita?

"Just a perfect day
drink Sangria in the park
And then later
when it gets dark, we go home

Just a perfect day
feed animals in the zoo
Then later
a movie, too, and then home

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spend it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own
it's such fun

Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was
someone else, someone good

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow"

Lou Reed (transformer, 1972)

Haverá canção mais perfeita que esta? Lendo apenas a letra parece uma canção alegre, sobre um fim de semana fútil. Mas depois vem o contraste com a música, tornando o conteúdo pesado, melancólico, mesmo perturbante. Há uma estranha e funda tristeza nesta canção.
Uma letra que parece referir-se ao prazer de uma companhia assenta numa melodia carregada de ausência, nostalgia, desamparo. Até mesmo quando o intérprete canta "You just keep me hanging on".
Não deverá ser, aliás, por acaso, a última estrofe quatro vezes repetida "You're going to reap just what you sow".

As interpretações desta canção podem ser várias, e há quem encontre o seu sentido na fase complicada da relação de Lou Reed com a heroína.
Mas é mesmo por isso , pela força da sua ambiguidade, pela confusão de sentimentos que gera, pelo vazio que nos deixa quando acaba, que esta é para mim uma das canções mais perfeitas.

Como que por magia, o fútil torna-se sublime. E dou por mim a pensar em ti .
E a voz do Lou Reed faz-se minha: "You just keep me hanging on".

"You just keep me hanging on".

domingo, 31 de outubro de 2010

Jack da Silva

Contrariamente ao Prof. Duarte havia a professora de inglês, Clara Zagalo, que chegou com uma ideia muito inovadora mas que se veio a revelar um fracasso.

Era a primeira aula de inglês a que íamos assistir na vida, e eu – e aposto que o Figueirinha também – tinha estado na véspera a estudar o manual para me averiguar sobre a dificuldade da coisa. Resultado: no dia seguinte eu já trazia o “How do you do?” na ponta da língua.

Mas eis que, logo na primeira aula, a professora chega com esta invenção que nos apanhou incautos. E que ideia iluminada era essa? Como todos se deverão lembrar, a ideia era atribuir nomes ingleses a cada um de nós.

Cheguei ainda a pensar que era para adoptarmos o nosso próprio nome para inglês e por momentos fiquei radiante. Poderia ser o Peter, como o Peter Parker, personagem que vestia o fato de homem-aranha nas bandas-desenhadas. Mas mesmo que fosse o Pedro Inocêncio a adoptar o nome Peter, pensei que poderia ao menos usar o meu segundo nome em inglês, William, em vez do Guilherme, ou mesmo “Ilherme”, como alguns me chamavam. E até poderia ser que pegasse lá na escola. Quem sabe começariam a chamar-me William nos recreios, ou mesmo Willie, ou Bill.

Mas contra todas as minhas conjecturas não era o nosso nome que ia ser adaptado. Era uma lista previamente alinhavada de nomes ingleses que iriam ser sorteados para cada um de nós. Havia nomes sonantes, como James, Steven, ou, lá está, o Peter.

Mas a mim foi-me calhar o Paul.

Que é como quem diz, querias ser o Pedro é? Então toma lá o Paulo. Logo a mim, que não gosto do nome Paulo. Ainda por cima já tínhamos na turma um Paulo (o Paulinho) e não me apetecia nada andar com o nome do Paulinho.

Foi assim a minha primeira aula de inglês, contra as minhas expectativas. Felizmente, na segunda aula, o Zé Manel mostrou também desagrado para com o nome que lhe tinha calhado em rifa e perguntou à turma se alguém queria trocar. Quando reparei que ele era o Jack levantei logo o braço. Não havia comparação entre o Paul e o Jack. Jack era muito melhor do que Paul. Jack, era Jack Nicholson, era Jack the Ripper, era Bomb Jack.

Mas não me lembro se ele quis trocar comigo.

Tal como em muitas outras disciplinas, a “chapa 4” das minhas notas a inglês sempre foi o “Satisfaz Bastante”. Não sei o que é que os professores viam em mim, mas tiravam-me logo a pinta de um aluno de 4. Lá está, chapa 4.

Era como que dissessem “epá, tu satisfazes, mas não muito, apenas bastante”. Sempre fiquei colado a este rótulo do “Satisfaz Bastante”. Eu próprio me convenci disso e disseminei o conceito por todos os cantos da minha vida. Sou, politicamente, um satisfaz-bastantista, um “sim ou sopas”. Na minha profissão, e até na minha vida privada, o satisfaz-bastantismo é traço que me caracteriza. Satisfaço, mas não muito.

Satisfaço q.b., estou na média. Sou mediano, vá. Não desagrado, mas não faço gritar de prazer. Faço as coisas mais ou menos bem feitas. Não muito más. Nunca perfeitas.

Mas um dia A Prof. Clara Zagalo quase fez história na minha ainda tenra carreira de satisfaz-bastantista ao dar-me a nota mais estranha que já recebi.

E a nota foi, sem tirar nem pôr, “Quase excelente”.

Lá está. Quase, sempre o quase. Nunca o “efectivamente”, o “arrebatador”, o “dispo-me já aqui”, o “totalmente”. Sempre satisfiz, mediocremente, “bastante”.


Hoje invejo o Luís Laranjeira, que se juntou à nossa turma no 2º ano do ciclo, trazendo consigo um ligeiro problema do 1º: “Professora o inglês para mim… é chinês”.

Ao menos ele era “sopas”.