a-chave-dicotómica

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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

red lights

Foto: Sofia Gabriel.

"Your lips and my ass


They should meet."


Bob Kelso in Scrubs (Season 5)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ruas dos nossos destinos

Ok, talvez o título de “burro marrão” tenha sido um exercício demasiado exaustivo de auto-comiseração. Mas tinha as minhas fragilidades na escola, nomeadamente a participação nas aulas. Litros de adrenalina invadiam-me as veias sempre que era chamado a participar. Era uma ansiedade tremenda. Acho que grande parte dos meus traumas funda-se precisamente aí, no pesadelo que era uma solicitação para ir ao quadro.

Um dos episódios que ainda hoje recordo vivamente - ou diria antes, que ainda me faz acordar durante a noite com suores frios - passou-se numa aula de Ciências da Natureza, no 2ªano do ciclo preparatório. Certo dia a então professora Conceição Ruas deu uma aula sobre “Cancro” e resolveu começá-la de uma forma diferente. Sabendo-me filho de médicos, incitou-me a ir ao quadro explicar à turma o que é que eu sabia sobre o tema. A partir da minha introdução abrir-se-ia o mote para discussão geral na sala. Escusado será dizer que fiquei em pânico, aturdido de horror, petrificado, mas lá me desloquei, devagar e relutantemente ao maldito quadro. Tinha uma sala cheia de olhos postos em mim, e um grande vazio no meu cérebro. Até que me lembrei da última conversa que tivera com a minha avó sobre esse tema nas últimas férias. Basicamente, peguei nas sábias palavras da minha avó e fi-las minhas. “O cancro é como umas raízes que se desenvolvem num determinado órgão…”, comecei eu, “e depois essas raízes espalham-se para outras partes do corpo”, continuei eu, enleando-me cada vez mais no tropel de idiotices que me vinham à memória. Buscar inspiração na – não desfazendo - sabedoria da minha avó não seria com certeza o que a professora tinha em mente, como deu para constatar quando lhe olhei pelo canto do olho.

A professora já estava verde. E não, não era por ser a professora de Ciências da Natureza.

“Obrigada Guilherme, pode-se sentar” disse-me ela por fim. E depois, virando-se para a turma, a Prof. São Ruas solenemente concluiu “Não é nada disto”.

Se alguma hipótese havia de eu ter seguido Medicina, desmoronou-se aí, nesse momento, como um castelo de cartas. Mas por pouco não fui caso único no currículo desta professora. Havia também um colega, o Nuno Carmona, que sonhava ser músico. Um dia, ao recebermos os testes de ciências, Carmona sentiu o futuro a aniquilar-se diante dos seus olhos ao receber um “Satisfaz Bastante”. Foi com estupefacção que a turma viu, pela primeira vez, Carmona lavado em lágrimas e percebemos logo porquê. Uma nota “Excelente” traduzir-se-ia numa grande recompensa: a oferta do seu tão almejado violino.

Esta história seria arrebatadoramente romântica se o nosso amigo tivesse ficado de tal forma marcado pela frustração que tivesse lutado a vida toda por ter um violino e fosse hoje um conceituado violinista. Mas nunca mais lhe ouvimos falar do violino.

No outro dia almocei com o Nuno e perguntei-lhe o que tinha sucedido desde esse dia ao que ele me respondeu “Ah isso… acabei por receber o violino na mesma. Ainda ali está a um canto”. E passámos o resto do almoço a falar dos nossos actuais interesses, nomeadamente, tocar órgãos de tubos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Zombies no lusco-fusco

Curiosamente aqui não vejo semblantes carregados no lusco-fusco, tal como via quando usava os transportes em Lisboa. Há em Amesterdão, como em outras capitais europeias, uma forte cultura urbana que em Lisboa foi esquecida.

Tornámo-nos suburbanos. Massificámo-nos. Deixámo-nos ir.

Zombiedificámo-nos.

"Helping someone move [to a new house] is like oral sex

You do it once and they owe you for life."

Jordan in Scrubs (Season 5, Episode 5 "My new God")

sábado, 9 de outubro de 2010

Vivas Video

Da casa do Vivas lembro-me vagamente de algumas coisas. Do hall de entrada, do quarto do Rui e da Rita (com os nomes deles em cima das camas) e da cozinha onde uma vez o surpreendi a fazer uma sanduíche bizarra. Pão bimbo barrado com manteiga e… Toddy de morango. Mas o Vivas tinha um conceito visionário acerca do valor que atribuímos ao sabor das coisas.

“Se um dia a tua mãe te pusesse um cagalhão no leite com chocolate tu só achavas o sabor um bocado esquisito, mais amargo, mas não desconfiavas”, disse-me ele um dia, e na altura achei que aquela reflexão tinha uma certa sabedoria, muito embora devesse ter desconfiado quando o ouvi expressar-se acerca da primeira azeda que provara: “Este coiso sabe… sabe a coiso.”

Suponho que o Vivas também se recordará da minha casa, pois de vez em quando acontecia que, quando eu chegava da escola, ele já lá estava a jogar ao computador. Por vezes com um iogurte que tinha tomado a liberdade de ir buscar ao frigorífico. Verdade seja dita, jogar Spectrum com o Vivas era a única forma de eu conseguir ver um jogo chegar até ao fim. A habilidade dele para o jogo valeu-lhe desde tenra idade andar sempre a encher os bolsos.

Concretamente, de berlindes.

Dito isto, o Vivas era o colega da escola que eu mais invejava. Não porque a minha mãe recorrentemente dizia que ele, apesar de não ser amigo dos estudos, era um miúdo muito inteligente (contrariamente a mim, que era um burro marrão). Também não porque ele passava sempre mais uma fase que eu em todos os jogos. E não só do Spectrum, pois recordo-me ainda hoje daquele dia em que jogámos ao bate-pé. Mas na verdade, eu invejava-o porque ele era o único do grupo de amigos cujo pai era dono de um clube de vídeo, “Vivas Video”, o primeiro videoclube de Elvas. Nessa altura, ter um videoclube era como ser uma espécie de feiticeiro. Vendia-nos fantasias sob a forma de cassetes VHS.

Lembro-me que foi lá que aluguei filmes como o “Rambo, a fúria do herói” e o “Pesadelo em Elm Street”. Mas também foi de lá que enfiei alguns barretes. Fiascos como o “Homem Aranha”, não o homem aranha que conhecemos hoje em dia do cinema. Aquele era um homem aranha que nem sequer usava luvas!

Uma mega desilusão para quem ansiava por ver finalmente no ecrã o nosso herói aos quadradinhos.

As cassetes VHS vieram revolucionar também o conceito do que é uma festa de aniversário. Pôr um filme para os amigos passara a ser uma fórmula de sucesso. Lembro-me de uma vez, já com os primeiros convidados a tocar á porta, estar ainda em pânico com o “One eye for one eye” de Chuck Norris numa mão e o “Footloose” na outra. Se o primeiro iria ser mal recebido pelas meninas, já o segundo faria os rapazes passarem a olhar para mim de lado.

Mas nisto chegou o Vivas com uma cassete VHS na mão, fresquinha no seu clube de vídeo, o “Howard the duck”. E salvou-me a festa.

Hoje penso como é que é possível o “Howard the duck” salvar alguma festa, por mais enfadonha que seja. Mas enfim, éramos crianças.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Religião & Moral

"Do you really mean to tell me the only reason you try to be good is to gain God's approval and reward, or to avoid his disapproval and punishment?

That's not morality, that's just sucking up"

Richard Dawkins in "The God delusion".