quinta-feira, 14 de outubro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Ruas dos nossos destinos
Ok, talvez o título de “burro marrão” tenha sido um exercício demasiado exaustivo de auto-comiseração. Mas tinha as minhas fragilidades na escola, nomeadamente a participação nas aulas. Litros de adrenalina invadiam-me as veias sempre que era chamado a participar. Era uma ansiedade tremenda. Acho que grande parte dos meus traumas funda-se precisamente aí, no pesadelo que era uma solicitação para ir ao quadro.
Um dos episódios que ainda hoje recordo vivamente - ou diria antes, que ainda me faz acordar durante a noite com suores frios - passou-se numa aula de Ciências da Natureza, no 2ªano do ciclo preparatório. Certo dia a então professora Conceição Ruas deu uma aula sobre “Cancro” e resolveu começá-la de uma forma diferente. Sabendo-me filho de médicos, incitou-me a ir ao quadro explicar à turma o que é que eu sabia sobre o tema. A partir da minha introdução abrir-se-ia o mote para discussão geral na sala. Escusado será dizer que fiquei em pânico, aturdido de horror, petrificado, mas lá me desloquei, devagar e relutantemente ao maldito quadro. Tinha uma sala cheia de olhos postos em mim, e um grande vazio no meu cérebro. Até que me lembrei da última conversa que tivera com a minha avó sobre esse tema nas últimas férias. Basicamente, peguei nas sábias palavras da minha avó e fi-las minhas. “O cancro é como umas raízes que se desenvolvem num determinado órgão…”, comecei eu, “e depois essas raízes espalham-se para outras partes do corpo”, continuei eu, enleando-me cada vez mais no tropel de idiotices que me vinham à memória. Buscar inspiração na – não desfazendo - sabedoria da minha avó não seria com certeza o que a professora tinha em mente, como deu para constatar quando lhe olhei pelo canto do olho.
A professora já estava verde. E não, não era por ser a professora de Ciências da Natureza.
“Obrigada Guilherme, pode-se sentar” disse-me ela por fim. E depois, virando-se para a turma, a Prof. São Ruas solenemente concluiu “Não é nada disto”.
Se alguma hipótese havia de eu ter seguido Medicina, desmoronou-se aí, nesse momento, como um castelo de cartas. Mas por pouco não fui caso único no currículo desta professora. Havia também um colega, o Nuno Carmona, que sonhava ser músico. Um dia, ao recebermos os testes de ciências, Carmona sentiu o futuro a aniquilar-se diante dos seus olhos ao receber um “Satisfaz Bastante”. Foi com estupefacção que a turma viu, pela primeira vez, Carmona lavado em lágrimas e percebemos logo porquê. Uma nota “Excelente” traduzir-se-ia numa grande recompensa: a oferta do seu tão almejado violino.
Esta história seria arrebatadoramente romântica se o nosso amigo tivesse ficado de tal forma marcado pela frustração que tivesse lutado a vida toda por ter um violino e fosse hoje um conceituado violinista. Mas nunca mais lhe ouvimos falar do violino.
No outro dia almocei com o Nuno e perguntei-lhe o que tinha sucedido desde esse dia ao que ele me respondeu “Ah isso… acabei por receber o violino na mesma. Ainda ali está a um canto”. E passámos o resto do almoço a falar dos nossos actuais interesses, nomeadamente, tocar órgãos de tubos.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
"Helping someone move [to a new house] is like oral sex
You do it once and they owe you for life."
Jordan in Scrubs (Season 5, Episode 5 "My new God")
sábado, 9 de outubro de 2010
Vivas Video
Da casa do Vivas lembro-me vagamente de algumas coisas. Do hall de entrada, do quarto do Rui e da Rita (com os nomes deles em cima das camas) e da cozinha onde uma vez o surpreendi a fazer uma sanduíche bizarra. Pão bimbo barrado com manteiga e… Toddy de morango. Mas o Vivas tinha um conceito visionário acerca do valor que atribuímos ao sabor das coisas.
“Se um dia a tua mãe te pusesse um cagalhão no leite com chocolate tu só achavas o sabor um bocado esquisito, mais amargo, mas não desconfiavas”, disse-me ele um dia, e na altura achei que aquela reflexão tinha uma certa sabedoria, muito embora devesse ter desconfiado quando o ouvi expressar-se acerca da primeira azeda que provara: “Este coiso sabe… sabe a coiso.”
Suponho que o Vivas também se recordará da minha casa, pois de vez em quando acontecia que, quando eu chegava da escola, ele já lá estava a jogar ao computador. Por vezes com um iogurte que tinha tomado a liberdade de ir buscar ao frigorífico. Verdade seja dita, jogar Spectrum com o Vivas era a única forma de eu conseguir ver um jogo chegar até ao fim. A habilidade dele para o jogo valeu-lhe desde tenra idade andar sempre a encher os bolsos.
Concretamente, de berlindes.
Dito isto, o Vivas era o colega da escola que eu mais invejava. Não porque a minha mãe recorrentemente dizia que ele, apesar de não ser amigo dos estudos, era um miúdo muito inteligente (contrariamente a mim, que era um burro marrão). Também não porque ele passava sempre mais uma fase que eu em todos os jogos. E não só do Spectrum, pois recordo-me ainda hoje daquele dia em que jogámos ao bate-pé. Mas na verdade, eu invejava-o porque ele era o único do grupo de amigos cujo pai era dono de um clube de vídeo, “Vivas Video”, o primeiro videoclube de Elvas. Nessa altura, ter um videoclube era como ser uma espécie de feiticeiro. Vendia-nos fantasias sob a forma de cassetes VHS.
Lembro-me que foi lá que aluguei filmes como o “Rambo, a fúria do herói” e o “Pesadelo em Elm Street”. Mas também foi de lá que enfiei alguns barretes. Fiascos como o “Homem Aranha”, não o homem aranha que conhecemos hoje em dia do cinema. Aquele era um homem aranha que nem sequer usava luvas!
Uma mega desilusão para quem ansiava por ver finalmente no ecrã o nosso herói aos quadradinhos.
As cassetes VHS vieram revolucionar também o conceito do que é uma festa de aniversário. Pôr um filme para os amigos passara a ser uma fórmula de sucesso. Lembro-me de uma vez, já com os primeiros convidados a tocar á porta, estar ainda em pânico com o “One eye for one eye” de Chuck Norris numa mão e o “Footloose” na outra. Se o primeiro iria ser mal recebido pelas meninas, já o segundo faria os rapazes passarem a olhar para mim de lado.
Mas nisto chegou o Vivas com uma cassete VHS na mão, fresquinha no seu clube de vídeo, o “Howard the duck”. E salvou-me a festa.
Hoje penso como é que é possível o “Howard the duck” salvar alguma festa, por mais enfadonha que seja. Mas enfim, éramos crianças.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Religião & Moral
That's not morality, that's just sucking up"
Richard Dawkins in "The God delusion".
