a-chave-dicotómica

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terça-feira, 22 de Julho de 2014

"Peter"

Atingi-o quando nasci. 

(mas cada um tem o seu, não importa em que nível. O importante é termos a clareza de espírito para saber identificá-lo e, a partir daí, e em função disso, podermos gerir o resto da nossa vida). 

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

"Abiogenesis", "Arrábida8", "Estás aí, Jaime?"



"Abiogenesis" é o título de mais um conto retro-futurista, num mundo onde a tese da geração espontânea, tão acerrimamente defendida por alguns cientistas do século XVIII, terá eventualmente vingado sobre a tese da biogénese. É um mundo, portanto, onde não ocorreu a célebre experiência de Pasteur, que arrumou com o debate aceso, refutando a tese da abiogénese. Pelo contrário, neste mundo provou-se que a vida pode provir de matéria inanimada, com os pozinhos certos de um elemento mágico: o "princípio activo". E é neste elemento que se centra a revolução biotecnológica, de uma vida urbana dominada pela tecnologia a vapor. É neste mundo que vive Raimundo, e está disponível na revista Bang!16.

E depois há a equipa dos dois taxonomistas, que vivem na turbulência do mundo ciber-punk de "Arrábida8", um conto distópico que fará parte da antologia "Por mundos divergentes", a ser publicada pela Editorial Divergência ainda este ano.

E depois há ainda o Jaime e a Liliana, um pobre casal que num passeio turístico tem uma experiência radical com zombies, no conto "Estás aí, Jaime?". E apesar de ter zombies, este conto é o mais divertido de todos (talvez o único algo divertido), e será editado pela revista Nanozine, após ter sido um dos seleccionados para ser publicado no "Grandioso nº 10" desta revista. 

Estas são algumas novidades das actividades criativas.

domingo, 11 de Maio de 2014

Foi assim


Apresentação do livro de poesia "Paragem de autocarro", no dia 9 de Maio.

sábado, 10 de Maio de 2014

HER

Apesar de não ter sido categorizado como tal, este foi para mim o grande filme Sci-Fi do ano passado. 

À parte as categorias, este filme é em si uma obra colossal, um filme de culto. Com um registo suave e melancólico, envereda por questões ontológicas enquanto explora em profundidade as relações humanas. Se é que se pode falar em relações humanas nesta obra que toca com sublime elegância no tema, tão caro ao "ciber-punk", da singularidade.

Mas sim, pode falar-se de relações humanas. Mesmo que o personagem se perca num relacionamento virtual, com um sistema operativo que rapidamente aglutina os corações solitários dos vultos que se cruzam nos labirintos da vida urbana, numa cidade sem tempo e sem geografia definida, a retro-modernidade de uma metrópole onde os cidadãos estão condenados a comunicar com os seus próprios computadores, alheados do mundo real que os rodeia, rarefazendo relações, deteriorando laços.

Estaremos tão longe assim desta visão? Hoje até no cinema, onde podemos ver HER, o escuro da sala é cada vez mais polvilhado de luzes de smart-phones, que cintilam como pirilampos. Cada vez  estamos mais sós e, ao mesmo tempo, cada vez sabemos menos estar sós.

quinta-feira, 8 de Maio de 2014

Paragem de autocarro, apresentação oficial dia 9 de Maio pelas 17:30h


Livro de poesia na secção "Prazeres Poéticos" da Chiado Editora. Grande parte da colecção de poemas, neste livro, tem já muitos anos (cerca de 15 anos ou até mais). Outros, serão um pouco mais recentes, mas não com menos de dez anos. Não quis, no entanto, deixar de os publicar, tendo-me sido oferecida a oportunidade de o fazer.

Talvez hoje escrevesse com outros olhos, acrescentasse alguma maturidade a alguns temas, mas não me envergonho nada desta "Paragem de autocarro". Deu-me até vontade de voltar a fazer poesia, nestes tempos em que tenho andado mais voltado para a literatura fantástica e de ficção científica.

Outros temas me movem, porém. Mas não ainda a flor da cerejeira (desculpa, avó: sei que insistias que eu deveria escrever sobre os aspectos bonitos da vida, sobre as maravilhas da natureza, dado que até sou biólogo.

Mas não. Reconheço o lado místico da natureza, a sua perfeição que nos inspira. Mas nunca irei escrever sobre a flor da cerejeira e explico porquê: mais belo que uma paisagem bucólica, mais puro, mais poético, é o olhar vincado da mulher anónima, com a mão segura no varão do autocarro, carregando na expressão do rosto o peso de uma vida que não foi perfeita. Com fracassos, com frustrações. Amores falhados, talvez mãe solteira, talvez passando ao lado de uma grande carreira. 

É essa mulher anónima, uma estranha, de quem não sei nada, e nunca saberei nada, uma mulher de rosto fechado, calejado, mas que num instante cruza comigo um olhar, revelando, por detrás de tantas camadas doridas, um anseio, uma vulnerabilidade, de quem diz "ainda estou viva", é isso para mim a flor da cerejeira.

As mulheres e os homens do autocarro. Apertados como sardinhas em lata e, no entanto, tão sós e distantes como os planetas de uma constelação. Pessoas anónimas, isoladas, no ambiente urbano, pessoas a partilhar um espaço, e vidas que se cruzam, condenadas a não se encontrar, é mais isso que me faz escrever. Não tanto as flores e os insectos. Esses reservo-os para a ficção científica).

terça-feira, 18 de Março de 2014

"Arrábida 8"


Um dos contos seleccionados para a antologia "Por Mundos Divergentes", a ser publicada pela Editoral Divergência:

http://editorialdivergencia.wordpress.com/2014/03/14/vencedores-da-antologia-por-mundos-divergentes/
 
Fico feliz pelos meus personagens. Esses que vivem cá dentro e que quero partilhar convosco.
 
Mais novidades chegarão em breve. Será um ano cheio delas, mas um passo de cada vez. 


segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

“Deixá-lo, Pedro”

Dizia-me a minha avó - avó bem falante - com bom conhecimento da língua. “Deixá-lo, Pedro”, dizia-me, sempre que em conversa eu referia uma qualquer contrariedade ou injustiça que havia surgido no meu caminho. Um caminho que a minha avó previa auspicioso - não é assim com todos, e todas, os avôs e as avós?

Nós, os netos, somos as pessoas mais capazes do mundo, temos o mundo inteiro à nossa espera, para que vençamos. Vençamos por nós, mas também por eles, que em nós depositam toda a fé e toda a confiança. Isto porque nós, os netos, somos apenas parte do mundo que eles conhecem, mundo que eles cada vez menos conhecem, mundo cheio de outros netos, que connosco competem na mesma corrida onde apostam os avós.

“Deixá-lo, Pedro”, dir-me-ia a minha avó. E também diria, cada vez, aliás, mais amiúde - praticamente sempre que a via - “Pedro, essa é a tua verdade. Mas há muitas verdades. Há a nossa verdade... e há a verdade dos outros”, repetia-se, com olhar filósofo, quando ainda tinha força física e capacidade mental para o fazer. Ou seja, há coisa de dois anos, vamos lá. Esquecendo-se, já nesses tempos que, quando me dizia “Pedro, essa é a tua verdade, mas também há a verdade dos outros” estava, na verdade, a citar-me. De facto, bastantes anos antes ainda, a minha avó  diria essa mesma frase a quem a quisesse ouvir - quase sempre ao meu tio e na minha frente - só que ressalvando, num claro abrir de aspas, “como me disse uma vez o teu sobrinho Pedro, ‘essa é a tua verdade, mas também há a verdade dos outros’”.
Isto, não imaginando a minha avó que, ao citar-me com todo o orgulho e devoção, estava na verdade a citar o meu pai, no dia em que fixei, com memória de papagaio, a frase que o ouvi dizer a um dos meus irmãos  (habitualmente o mais hirto e inflexível nas suas convicções) durante uma discussão acesa: “Essa é a tua verdade, mas também há a verdade dos outros”.

Não que a minha avó se importasse de citar o meu pai, na verdade considerava-o um sábio e citá-lo-ia na mesma, mas também não me chateei por aí além de arrecadar com os louros durante todo este tempo. Ser eu o citado, “a citação da citação”. Assim como também não me importei quando deixei de ser eu a autoridade, o falso sábio, autor-usurpador da frase, o alvo da citação. Até porque, poucos anos depois, já era a mim que a minha avó dirigia, repetidamente, a frase: “Pedro, essa é a tua verdade. Mas também há a verdade dos outros”. Frase que ela havia incorporado, à qual se havia agarrado, com a réstea das suas forças, numa memória cada vez mais encarquilhada, esboroada, nebulosa. Frase que havia feito sua, dito que passou a ser um slogan, ensinamento de vida, importante mensagem a transmitir, em cada contacto esporádico com os netos. Expressão que fazia sempre questão de dizer, para ela própria não se esquecer.

Até que começou a esquecer-se. A não conseguir expressar a citação por inteiro, a lembrar-se apenas que havia uma certa frase, a tal frase, que já não sabia bem como era, restando-lhe um olhar frustrado e melancólico, resignando-se à memória esparsa e rarefeita. Mas eu então proferia, novamente, a frase. E ao repetir-lhe a frase, reavivava-lhe a memória. A minha avó relembrava a mensagem filosófica que era a dela, e que alguns anos antes havia sido minha. Minha, do neto que, por sua vez, tinha feito sua a frase do seu pai, uma frase que o pai havia dito casualmente, “en passant”, numa conversa em família.

E que interessa, então, de onde veio a frase? Avó, a frase era tua. Era e é a tua frase.

Última avó viva que ainda tenho, e cada vez menos a pessoa que eu conhecia, mas ainda é ela. Uma avó que não seria uma pessoa perfeita. Com certeza, eu também não o sou. Avó que nem sempre tomou o melhor partido. E eu, será que sempre o tomei? Quem sou eu para julgar? E que interessa isso agora?
Quando a vejo, sempre que a visito no lar, lembro-me apenas da avó que esteve lá, sempre, presente, na minha infância, na minha adolescência. Não quero ser injusto para os outros avós. Os de Setúbal deram-me o apoio, a proximidade, os de Viseu deram-me todo um calor aconchegante quando lá ia, e impregnaram-me com o encanto estruturante da ruralidade (e há ainda a avó da Madeira - história comprida...).

Mas esta avó, a que hoje ainda me resta, lembrar-me-ei dela na sua pose direita, sentada num cadeirão, com tiques de aristocrata, olhar vivo e entusiasta a mostrar-me, num Atlas pousado na carpete da sala, a geografia política da altura. Uma enorme União Soviética a alastrar-se perigosamente no mapa - ela era mais do lado dos americanos, claro está. Mas, por outro lado, quando me penteava fazia o risco do lado esquerdo. O risco, esse, tinha que ser de esquerda, explicava-me antes de sairmos para o café do Hotel Esperança, na Luísa Todi, em Setúbal. Café que ela e o meu avô tomavam com o “cheirinho” que traziam clandestinamente de casa. E eu, e o meu irmão e os meus primos, não ficávamos atrás. A nós pediam-nos um garoto. Ou então ficávamos com o fundinho do café, armados em grandes. E o meu avô, para nos fazer rir, havia sempre de pedir ao “Chefe” que servia, “um palito, um copo de água e o jornal de ontem”.

Só sei que nunca me hei-de esquecer da esplanada do café Esperança. Já não bebo garotos, mas sou aficionado em café, e apaixonado por toda a ficção que se inspire na guerra fria e ameaça nuclear. Certo é que, parte daquilo que sou, flui nas mãos que, em tempos, tinham força suficiente para abrir os livros pesados e espessos onde se encontravam mapas-mundo, pinturas do Cézanne e do El Greco. Parte daquilo que sou será sempre o garoto que pernoitava na casa dos meus avós, que lhes vasculhava as arcas e as gavetas, e as portas espelhadas dos pequenos armários das casas-de-banho. Parte daquilo que sou será a criança que se cortou na lâmina de barbear do meu avô, que experimentei à socapa. Parte daquilo que sou, ainda sente o aroma a leite com chocolate Coqui, e das torradas (as “chaplas”) com marmelada caseira e queijo de Rabaçal, e tem tatuado por dentro o padrão azul dos azulejos da cozinha. A cozinha perfeita dos meus avós, com um pequeno fogão, onde trabalhavam umas mãos agora trémulas, mãos que agora se desvanecem.

Resta-me agradecer-te, avó. Reconhecer o sortudo que hoje sou por te ter tido, por te reviver em memórias. A ti e aos outros avós. Obrigado, portanto, a todos os meus avôs e avós.

“Deixá-lo, Pedro”. Sim, deixá-lo, eu sei. É a minha verdade.